novembro 24, 2006

Bovina
Era mais um daqueles dias ordinários que sempre terminam ordinariamente em um trânsito caótico qualquer. Encurralado como uma rês no corredor final do frigorífico, nada restava a não ser olhar para toda aquela legião bovina que fatalmente sente-se exatamente como você. É a solidariedade do caos. É possível até ganhar um quase-sorriso aqui e outro ali quando se pega, ou pega alguém, bufando, desconsolado diante da própria tragédia. A poucas quadras da porta final do frigorífico, naquelas ruas mais estreitas, de duas mãos, de dentro do carro percebo uma mulher, tão ordinária como aquele fim de dia, mas com um olhar que ia além, que era especial. As luzes, vermelhas dos carros que vão e brancas dos carros que vêm, davam um contorno espectral ao seu rosto. Não era um olhar fatal, não era sedutor, nada disso. Era algo que expunha sua alma, seus mais recônditos sonhos e anseios. Apesar de olhar em minha direção, notei que não era para mim que olhava. Procurei decifrar aquilo por mais alguns segundos e só depois de olhar para trás, quase que através de mim, percebi que ela olhava boquiaberta para uma loja de vestidos de noiva. Talvez, para ela, o frigorífico ainda não era uma realidade.