janeiro 22, 2007

Tempo
Sentada no sofá esperando pelo retorno da energia elétrica pode perceber, pela primeira vez, que a carne de seu corpo começara a descolar dos ossos. Notou que os seios não mais miravam a parede e que o braço estava mais flácido do que nunca. Por um instante chegou a crer ter ouvido o sutil ruído que o processo fazia. Algo como placas de gelo descolando da rocha e caindo no mar gelado. Seus olhos encheram-se de terror e cogitou nunca mais sair de casa ou deixar-se ver por alguém. Só se acalmou quando olhou para o lado e percebeu que seu amado também envelhecera. Continuava capaz de longas e firmes ereções, é verdade, mas ainda assim, era visível nos leitos de seu rosto o poder da erosão provocada pelo tempo. O amor gruda nas entranhas na exata proporção que a carne desgruda dos ossos. A luz voltou.

janeiro 08, 2007

Começo
Inesperadamente o telefone toca. Antes da voz, um suspiro. Chego a sentir o calor de sua respiração em minha orelha. Era ela dizendo, sem nenhum tremor, que depois de pular ondas e prometer que seria uma nova mulher neste ano, queria me ver, logo e a sós. Ódociaba Yemanjá!